(RE) ELABORAÇÕES ÉTNICAS INDÍGENAS DIGITAIS
Por Eliete Pereira (*)
“O computador conectado assume neste tempo ser instrumento de luta pelos nossos direitos. Com ele, registramos nossa cultura, historia e arte, estudamos e aprendemos, inclusive, a elaborar nossos próprios projetos. Ele nos facilita o dialogo e o intercambio”.
(Nhenety Kariri-Xocó, membro da Rede Índios online e coordenador da comunidade colaborativa de aprendizagem Arco Digital).
Os povos indígenas estão presentes na rede digital tanto por meio de organizações indigenistas (e/ou indígenas) quanto por sujeitos que por algum motivo se destacam - em boa parte, escritores indígenas. Quando observamos o panorama dequeles que se auto – identificam como indígenas e que estão na rede com um site, blog, portal ou comunidade virtual no Orkut, tais experiências tornam-se mais expressivas. Principalmente porque se comunicam – interagem e produzem conteúdo – sem a mediação de nenhuma instituição, e empreendem, nas tramas hipertextuais da rede, de formas significativa de auto-representação e de protagonismo.
Estamos diante da crecente - embora ainda minoritária – presença indígena brasileira no ciberespaço que, ou longo dos últimos anos, atuando por meio de site, blogs, comunidades virtuais e ambientes corporativos, que tem se (re) construído e se (re)elaborado etnicamente nas redes digitais.
O tema é provocativo para as imagens de índios presentes no imaginário popular brasileiro, para a antropologia - historicamente reconhecida e “autorizada” a representá-los - , e para as instituições, sejam elas governamentais ou não, construídas sob as modalidades de poder de tutela ou de assistencialismo.
A internet promoveu a abertura de horizontes, contrariando o pensamento de uma grande maioria interessada em nos manter amordaçados, trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono de nossas tradições, e devolveu nossas vozes, que foram caladas por muito tempo, cobertas pelas vozes dos que se julgam especialistas. Conectar – se ao mundo por meio da internet é ter direito a um rosto. É saber fazer ouvir nossa voz é saber dos acontecimentos e interesses que envolvem toda humanidade. Por meio desse mecanismo tecnológico conseguimos perceber uma janela para o mundo, a tão sonhada inclusão dos povos indígenas, como sociedade fundamentada, negada há décadas e décadas.
“A internet promoveu a abertura de horizontes, contrariando o pensamento de uma grade maioria interessada em nos manter amordaçados, trouxe – nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições(...)
De modo uníssono, os interlocutores indígenas que atuam na rede digital apontam o direito à voz como uma especificidade importante da internet e capaz de mostrar o cotidiano desses povos, ao mesmo tempo em que podem manipular e atualizar a imagem que têm de si próprio se aquela que querem transmitir aos usuários indígenas e não-indígenas. Esse processo de auto-representação reside num processo de “fortalecimento cultural” (expressão freqüentemente utilizada por eles), capaz de melhorar a auto – estima dos índios, estigmatizados nos seus contextos locais e nacionais. O “fortalecimento cultural” implica na representação discursiva –hipertextual e digital – e em todo o processo de atuação na rede em que são dinâmicos os elementos que compõem os sinais diacríticos da “indianidade”- termo coloquial apropriado para dar gramaticalidade a uma diferença, dada por uma identificação étnica, contrastiva e , contudo, relacional e plural.
A difusão dessas identificações nos meios de comunicação digital representa formas de intercâmbio de significados que rompem, ao menos parcialmente, com os sistemas de representação hegemônicos – com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a própria academia – construídos por uma autoridade etnográfica produzidas pelos antropólogos.
Na internet, a identificação étnica resulta na apropriação e na interação tecnológica, numa reelaboração hipertextual da representação de si mesmo, e da simbiose entre softwares e hardwares. Com a apropriação da linguagem e com a interação dos espaços de fluxos informativos, as subjetividades tornam – se ativas e dinâmicas, que a fluidez da comunicação digital promove a desterritorialização, a visibilidade de saberes e cultura e a interculturalidade.
Ao mesmo tempo em que interagem com a as novas tecnologias comunicativas, os índios refletem sobre sua experiência, como ação intrínseca à dinâmica de sua própria cultura. A ação comunicativa na rede digital tem resultado no modo em que são vistos pela sociedade não – indígena e no modo em que os próprios povos se vêem e se (re)constroem na rede. Tem – se dessa forma, uma condição extremamente rica e criativa de manipulação de elementos diacríticos étnicos voltados para o reconhecimento de uma diferença construída sob aspectos de uma indianidade.
As experiências étnicas indígena na rede digital não é apenas discursiva, mas concretiza –se pela dimensão sensorial da sociabilidade tecnossocial – sua interfase entre o homem e a maquina, e os fluxos comunicativos. O poder de manipulação da imagem possui capacidade de romper estigmas e de reverter estereótipos - ou seja, revela uma força de atualização incrível na experiência em rede. A internet é poderosa e esses sujeitos indígenas entenderam isso, fazendo em sua expressão a confirmação do que é para eles uma possibilidade de transformação a partir de uma (re) elaboração étnica, problematizada nos seus termos coloniais, (re)construída por subjetividades étnicas indígenas “digitais”.
(*) é historiadora, mestre em ciências sociais pela Universidade de Brasília (UnB), doutorada pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro de Pesquisa ATOPOS, da ECA/USP.
Textos retirado na integra da “MSG Revista de Comunicação e Cultura” (edição 2 ano1), uma publicação da Aberje